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Corrente
Insana pedra que não despenca sobre mim, talvez, se o fizesse, racharia por inteiro este corpo que duvida até mesmo do óbvio cru e cruel e que os dois hemisférios do crâncio, não conjugam de igual opinião. Houve tempo em que os ventos, por mais diversos lugares de onde brotassem, findavam antes mesmo do exílio, para refrescar este calor que meu peito exala mas que o Kelvin não registra mais. Dormi quando ainda estava frio, ibernei na juventude e despertei no aquecimento global. Já rodei os ponteiros do relógio para trás até quase entortar meus braços, mas o cuco sempre me cospe na cara o tempo que já perdi. Corri descalço contra a correnteza do rio para ver se inverteria sua corrente, mas a corrente já havia aprisionado meus pés no pó da presente rotação. Então sigo. Mas agora, sem a menor pressa, sem a menor ponte que ligue os honorários que gastei comigo mesmo controlando a ansiedade marginal da vida de outrora.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h04
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Uma gata conhece outra
Uma tela de computador às vezes pode parecer menos trivial do que se imagina. Ela pode trazer-nos desde de dados mais complexos e criptografados, até mesmo a outra metade do nosso HD. Foi assim quando vi você. Hard ficou o disc, meu heart ficou soft. Mesmo através dessa rede de computadores interligados, comparável a uma galáxia de fios, antenas e ondas, meu PANDA não foi capaz de deter você. Você me invadiu. Deixou teu vírus em mim. Ainda não há vacina para ele, e quer saber, não sei se quero eliminá-lo. Afinal, nesta galáxia existe milhares de estrelas e o porquê de duas se encontrarem é algo ainda desconhecido, mesmo diante de tantas outras como testemunha. Agora é creditar um pouco de confiança no tempo. Eu tenho certeza que a tua tela mostra tua declaração a este usuário insólito que me transformei, aprisionado na possibilidade do irreal, esperando um enter para enviá-la. Aperte. Aperte quando quiser. Não se apresse, não tenha medo. O pior que pode acontecer é eu apaixonar-me, mas isso é só uma possibilidade. Haja o que houver, dois computadores podem separar-se apenas por alguns quilômetros, mas duas estrelas podem distar anos luz uma da outra. Escolha a distância que te aprece. O prompt pisca na tua tela, já escreveu tudo que quer dizer? Então enter. Olha pra tela, confira se todos os carinhos e afagos cabíveis não foram omitidos. Se ainda não, faze isso logo, antes que tua gatinha pule no teu colo e aperte o enter por você.
Kiko Casotti
* Este texto foi escrito com exclusividade.
Escrito por Kiko Casotti às 23h23
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Ventos
Suaves são os alísios quem trazem seu cheiro de volta, e denso é o ar empregnado pela essência da saudade. Esta não fora motivada pela tua partida não, é fruto do que fomos e que de certo haveríamos de ser, porque o que é é, e é assim desde o princípio. Nebuloso é o tempo do regresso, bem mais sagaz e difícil que os ventos da partida, onde a preocupação era com o "quando" e passara a ser agora com o "como". Sutil diferença seria sentida por um leigo, mas a ignorância é um prato do qual ainda nao fiz uso, e ouso dizer que não farei dia algum, não pela forte supremacia que sinto de um excesso de cultura ilimitado, mas sim pelo acovardamento que o insucesso da ignorância pode trazer a um corpo vazio. E se o é, foi porque preferiu não inalar os ventos que vieram de longe, mas, podemos indagar a este o mal que faz a ausência daquele para a sua vida ? Antes ele evite que seu pulmão absorva os males da saudade e tenha vida no seu coração que ainda bate.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h10
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Infinitude
Eu sou o futuro de um passado incerto. Projeções de um presente invisível incutido em minha mente como transparência de minha realidade. Eu fui o que os meus pais queriam,quando, o que eu queria, na verdade, era parar de fingir que eu queria alguma coisa. Eu sou você quando se olha no espelho e se pergunta se tudo aquilo que vivemos juntos é fruto da mais pura verdade ou apenas o reflexo de um fracasso iminente. Eu fui nós dois enquanto olhava aquela velha foto do acampamento nas montanhas, sorrindo dos desarranjos e infortúnios que a pequena selva nos pregara. Eu fui eu te amo, você foi eu te amo também pela primeira vez. Eu fui o que sou hoje só mesmo para deixar bem claro o que eu era, e eu era feliz. E pretérito existem vários, mas o meu era o mais que perfeito. Eu lhe sonhava enquanto acordado e lhe amava enquanto dormia. Eu só não quero mais conjugar tanto. Tantas pessoas, tantos tempos, movimentos. Não importa o sou, o fui, o era, estes verbos já foram conjugados pelos personagens dos momentos ditos, mas não os personagens infinitos. Esta é a única certeza que temos, somos perecíveis esperando a hora de findar a juventude e abraçar a infinitude, pois " o que for, quando for é que será o que é ".
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h51
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A canção da despedida
A cadeira firmava-se ao chão somente pelas duas pernas de trás. Outro apoio era feito pela minha cabeça na parede às minhas costas. No ouvido um fone trazia-me o som de "nothing else matters" muito tocada no início dos anos 90 e eternizada pela juventude da qual fiz parte. Mas o fluxo de sangue do meu cérebro corria em sentido oposto ao dos acordes da canção, e isso que dava o equilíbrio necessário a cadeira e ao meu corpo. Contudo, a música sempre acaba, o fluxo sanguíneo não. Não haveria muito tempo de equilíbrio ainda. Esse desejo humano de optar por sempre fazer as escolhas mais perigosas sob o preceito de manipular a adrenalina de teu corpo, nada mais é que uma completa incompreensão do certo e do errado. Olhar de frente uma luz de uma cama de hospital seria um primeiro passo, e talvez único, de sair da escuridão da sombra e sentir a luz quente do sol divino em sua tez, ainda saudável, sem o estupro inescrupuloso da deterioração do oposto. Então, não faça como eu...Senta numa cadeira com todos os seus pés fixados ao chão. Anda na moto em duas rodas, pois para isso foi programada. Anda rápido e não ultra-rápido, respeita às normas de trânsito, respeita as normas da vida. A vida é nossa, construimos as nossas regras para adequar-mos nossas vidas, então nós somos as regras. Para mim já não há mais tempo, os pés da cadeira escorregaram antes do solo da canção e, o único aparato para meu corpo, foi o piso inelástico do chão. É difícil falar para vocês isso daqui, mas o farei o quanto puder, para que não vejam assim como eu vejo agora meu corpo numa caixa descendo sete palmos nessa terra de meu Deus. Na lápide: " Aqui jaz Fulano de Tal, alma de um homem sem medo, abraçado pelo medo do homem."
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h39
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Cegueira
Tenho que trocar essas lentes...Os anos voaram e meus olhos ficaram para trás assistindo as derrotas da matéria. Mas, antes cego do que olhar para o tempo enquanto limpo as lentes dos óculos na camisa suja pela poeira do ar seco. Valente pano que deslizava manso sobre o vidro. Você foi mais lente do que todos os óculos que eu comprara em toda minha vida, pois nenhum deles desvendara uma imagem tão perfeita como a sua. A culpa é dessa tal de genética. Metade dos meus cromossomos herdei da beleza de meus pais e a outra metade da cegueira dos dois, somadas. Mas reclamar de quê, não é verdade! Que seria dos oftalmologistas se não fôssemos nós, seres recessivos abnegados da visão !!!Então eu mudo de assunto porque não posso mudar o que sinto, e realmente o sinto. E o que seria dos meus dias se não fosse você! Primeiro seriam embaçados é claro, mas para as ruínas do tempo eu dou as costas, prefiro entregar-me a lucidez escancarada de teu brilho. Nunca me atrevi a buscá-la, lá mesmo por onde passavas, porque não queria evidenciar -lhe passos sôfregos, temperados com uma tremenda dificuldade de caminhar devido ao efeito dos tremores que meu corpo alcança. Mas não há de ser nada. Eu só preciso de alguns segundos com você. O tempo minimamente necessário para dizer que quem pergunta de você tem meu corpo, e meu corpo é uma divindade da natureza e por ela guio meus instintos e absorvo tua seiva; não me rogarei menor por enxergar menos do que o Pai lhe fez mulher, porque sei que no escuro, mostraremos o sabor dessa atitude. Sem luz prevalece o que eu te ofereço, por isso aguardo este tempo, ínfimo que seja, a sua frente, pra transformar dois corpos a sós em um só corpo, às margens da dor e no centro do Universo.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h28
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A coluna
Aqui frente à tela, meu espírito vaga atrás de vibrações que me tragam aquela velha vontade de escrever. Os dedos parados sobre as teclas revelam que meu conhecimento em digitação se fez presente ainda nos tempos da datilografia. Não, não é nenhum exame médico não, eu fiz datilografia mesmo! E muitos que lerem essas poucas linhas, também de certo já carregam esse conhecimento consigo. Estou tão desconcentrado que até o ventilador virou meu inimigo. Suas pás desconhecem a densidade do ar impregnado das loucuras de ontem a noite e o barulho é seu maior efeito. Desliguei-o. Os dedos ainda sobre as teclas e o 'prompt' aguarda meu primeiro dígito, mas minha atenção agora se apega há um velho disco que roda na vitrola velha que ganhei ainda menino. Na canção um tal de Santo Cristo foi pra Brasília e acabou morrendo, e uma tal Maria Lúcia também...Virei um copo inteiro de wisk puro enquanto ouço o final da canção. Isso foi suficiente pra que meus dedos nervosos fizessem algum barulho nesta máquina implacável. Mais um copo de wisk se fez necessário. Na tela do computador, vejo que já passa da meia-noite, tempo limite pra que eu mande o e-mail para o jornal que começa a ser impresso em uma hora. O velho disco agarrou na hora em que o tal cara queria dizer pro presidente para salvar toda essa gente que faz sofrer...Na quinta repetição, minha coluna ganhou vida: " Renato Russo: o dom de falar o que precisa ser ouvido ".
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 20h16
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Eu devia ter...
Eu devia ter um pouco mais de ambição; a busca não é assim tão difícil e tão distante que meus movimentos não pudessem destravar estes ossos tão machucados pela covardia intermitente. Eu devia ter um pouco mais de sabedoria, entretanto, pensar harmoniosamente enquanto os desafios do tempo e espaço me alienam, só me remetem de volta ao ostracismo da ignorância imaculada dos comuns. Eu devia ter um pouco mais de calma, mas quem foi que alguma vez na vida ouviu dizer, que as águas calmas de um certo mar invadiram as terras inoportunas no seu caminho até os confins do continente? Eu devia ter um pouco mais de ilusão, tantos vivem nela sem saber que, talvez se eu assim o fizesse, devia ter mais do que uma simples vontade de ser. Eu devia ter um pouco mais de você, só que pouco gera muita vontade de ter mais e, seu excesso, provoca uma overdose de paixão que a própria carne cortada em vivas cores não traz tão vivo o meu desejo de lhe possuir outra vez. Eu devia ter um pouco mais de tudo, e, de tudo, quando digo, digo tudo outra vez, passando por dentro de mim e desembocando dentro de você. Eu devia ter um pouco mais de dever, assim não deveria nada pra ninguém e meus deveres transformar-me-iam no homem que me fiz ontem, na época em que eu ainda lhe chamava pelo nome e não por palavras num papel que aceita qualquer garrancho desastrado com a mesma gratidão que embrulha um peixe fedido num mercado qualquer. Eu devia ter um pouco mais de nada, pois como não sou senhor da sorte, talvez o nada me trouxesse tudo, talvez o tudo fosse pouco, mas quem tudo quer acaba só; mas prefiro ser só, escrevendo minhas palavras mal acabadas enquanto acabo esta história bem distante, longe demais de onde nunca lhe vi e bem juntinho da porta quando ela se abre e joga seu corpo em cima de mim. Eu devia ter um pouco menos de luz, porque agora, bem aqui neste lugar, acima do chão e abaixo do teto tudo o que faremos não queremos companhia de nada que não seja minimamente escuro que só evidencie os nossos movimentos e a volúpia de nossos desejos.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 21h46
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Sobre a vida como ela é e coisas afins
Vejam como é duro viver em sociedade. Vivemos num mundo assolado por escândalos de corrupção, guerras, desastres naturais, e outras tantas penalidades que só não nos cobram taxas para coexistir. Abro o jornal pela manhã, antes do café, e já leio uma denúncia de desvio de verbas por alguns membros do congresso, eleitos por nós e que nos representam, porém, que desviam essa nossa verba, para seu bolso unitário. Sento a mesa do café, já com a página policial nas mãos. Outra bomba: o leite está contaminado por água oxigenada e soda cáustica. Já não bastassem poluir as águas dos rios e mares, agoram poluem a água do leite?- pergunto-me. Sim, porque o leite já não é leite há muito tempo, o que tomamos é um composto de gotículas de leite e água. Agora entendo o porque do produto chegar as nossas mãos mais cremoso: é a soda e a água oxigenada! Bom, perdi o apetite com toda essa estória gastronômica logo cedo, antes mesmo da Ana Maria Braga. Parti então para as páginas esportivas, esperando ler notícias sobre o meu Vascão, sobre o Corinthians caindo pra série B, sobre a formação das novas equipes para a temporada 2008 da formula 1 e os jogos da NBA que estão por terminar. Entretanto, o que vejo? Antes fosse cego. Um tenista russo ou croata, ou qualquer uma dessas línguas do leste europeu bem difícil de pronunciar, ligado a uma máfia de corrupção-marmelada em seus jogos de partidas oficiais de tênis, com fins de produção de resultados para uma rede de apostas ligadas a empresas, desembocando na lavagem de dinheiro. Levanto da mesa e saio com os jornais em punho, minha esposa pergunta "onde você vai com esse jornal?" e eu de pronto respondo "vou dar um fim melhor pra ele, vou no banheiro". Porque podem estar todos corrompidos por aí a fora, os políticos, os bandidos, os esportistas e até mesmo o leite, mas o meu intestino não, ele sempre funciona bem a essa hora da manhã...
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h14
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Há vida em seu olhar
Eu consegui lidar com sua presença alguns segundos, mas segundos parecem eternos quando sentimos o tremor da ansiedade. Essa tentativa humana absurda de evitar o óbvio pela ausência de provas contra si mesmo, faz do seu corpo refém de um simples olhar. Duas pessoas, um lugar. Seria ridículo se não fosse trágico. Duas pessoas lado a lado fixando seus olhos nos mais diferentes sinais de movimento para disfarçar a estupidez do silêncio de suas bocas e olhos. O trânsito parado e o céu cinzento arquitetavam mais um fim idiota para uma peça infantil. Mas o acaso às vezes se opõe ao óbvio. Um simples movimento de cabeça deu outro fim para essa novela. Ao mesmo tempo, viramo-nos pra dizer algo que até hoje, com certeza, nem sabemos o quê, e nem havia mais importância também, nossos olhos já haviam se magnetizado. Seus olhos verdes, sombreados por uns poucos cachinhos loiros revoltosos contra o capuz da sua roupa, projetaram uma figura, que nas mãos de da Vinci, ganhariam sabor de destaque no Louvre. Mas não era, era a minha obra de arte a partir de então. Meu sorriso revelou isso de forma que a discrição passou bem longe dali, e a tua resposta foi o fim. O fim do dia ruim, o fim do trânsito, o fim do mal humor, foi o fim de tudo aquilo que não há necessidade alguma de ter início. Mas foi o início, o início de tudo aquilo que eu não sabia que eu tinha mas que sempre foi meu e eu acabara de descobrir, e estava ali, bem dentro dos seus olhos claros: eu descobri que tinha vida, e vivo a vida todos os dias a partir de então, dentro de seus olhos...
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h38
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Reflexos da alma
Eu vi quando você saiu correndo de repente como uma menininha medrosa pela sombra dos galhos de árvore no chão, e com as pernas ainda confusas e bambas. O tombo foi só uma questão de tempo. Joelhos ralados e um risco de lágrima no rosto, evidenciavam que o tombo não houvera sido apenas engraçado, doía. Ao seu lado uma poça d'água refletia seu rosto triste e machucado. Enquanto você a olhava, uma gota de lágrima desprendeu-se de seus olhos e encheu de ondas o mar da tranquilidade que a poça guardava. Agora seu rosto desfigurara-se e os reflexos não lhe eram favoráveis. As ondas da poça remetiam-lhe ao rosto as rugas que o tempo far-lhe-á um dia. Filmes atropelaram seus pensamentos de então. Desde os medos das sombras dos galhos até os medos mais profundos da alma. A grande verdade era desvendada diante de seus olhos: a imagem não reflete pensamentos e atitudes, só os traços firmes e fortes do seu corpo e da sua imagem que se esvaíram pelo mal uso. Seja um corpo refletido, não um reflexo de si mesma! Os cegos não enchergam porque não podem e não por que dão às costas para o momento; preferem a solidão do escuro do que um reflexo como companhia. Jazem no silêncio do vazio é verdade, entretanto, não lançam seus corpos e suas mentes na volatibilidade de companhias estéreis em detrimento do alvo maior de sua existência, o amor em vida. Até por quê, não chove todos os dias, não haverá poças o bastante para ampliar seus contatos. O que valeu a pena então? - questionou-se nos segundos que se seguiam. Mais vale ter pernas boas parar poder correr ou mais vale um tombo providencial para envidenciar-lhe o maior propósito de viver-se? Mais vale uma vida toda de trabalho atrás de alguns sonhos do momento ou vale mais trabalhar um pouco para ter nos melhores momentos, as pessoas que ama ainda com vida? Deu-se conta de que a parede do seu quarto, forrada de diplomas diversos, não contém uma foto sequer de pessoa alguma? Mas não deixe de colecioná-los - dizia-lhe sua voz interior -, eles são indiferentes ao tempo e podem ser usados para forrar o seu caixão ou até mesmo queimados numa noite de muito frio e sozinha. Foi nesse contexto que te vi. Você olhou para o reflexo outra vez, e as ondas já haviam sumido, sobrou apenas o que a vida nos dá: a vida. Não era menina nem era velha, era você, que levantou, sacudiu a poeira sobre a calça, um pouco rasgada na queda, virou-se e olhou para mim. E correu. Correu muito. Correu tanto que teu corpo parecia ter queimado todo o seu medo e seu vazio metabolizando-os em adrenalina. A luz do sol na minha face ofuscara um pouco minha visão, e, quando dei por mim, você se jogava com toda a força do movimento sobre meu corpo, e me abraçou muito, muito forte, enquanto eu a rodava como um carrossel no centro de nossas almas, no parque de nossos desejos. Você leu meus lábios enquanto eu disse "te amo", e eu li os seus quando você disse "eu amo mais" e o sorriso repleto de lascívia percorria nossos rostos. É assim a vida, são poucas as chances de fazer tudo o que há de mais importante a fazer, e alguns segundos apenas. Não deixe que o tempo lhe leve pra bem longe de você, pois lá você estará bem longe de qualquer um. Então fica perto e viva a vida, aí talvez, sobrará um espaço maior na parede de seu quarto para algumas fotos dos fatos da sua vida.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h01
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De olhos bem fechados
Traços velhos de um novo lápis não reescrevem uma velha história de um amor iminente. Pobre papel branco, indefeso só lhe resta absorver o carbono espalhado por digitais desastrosas que tentam de todas as formas salvar escrevendo o que passou a noite toda a aniquilar falando. Finitas, porém não menos ferozes, são as palavras que mostram o quão medíocre é o ser humano diante de uma situação clássica de amor incondicional. Só que o mesmo papel branco, aceita tinta de pena. E tenho pena. A pena para quem destrói qualquer intenção de amar, é o passo seguinte na direção do cume da montanha de erros, onde o próximo passo remete-o ao abismo do ódio. O réu é punido ao extremo. No tribunal do amor, o juiz é implacável. A pena do mortal que o afronta, é prisão perpétua dentro de si mesmo, vivendo no ostracismo da eternidade a vagar no meio do nada desviando-se das agonias da solidão e lacrimejando o mesmo sangue grosso e fedido que um dia se desprendeu das feridas que causara. Já minha pena foi te esperar demais. Deixei que teus olhos transitassem por muito tempo perto de mim, e os meus, cegos, não os perceberam. Mas a vantagem de não enchergar, é deixar que o futuro projete uma foto de nossos olhos bem fechados e de nossos lábios bem juntinhos.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h32
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Glória
Dos males o menor...Pensei ter alcançado a glória, quando na verdade passei perto de ter sido razoável. Mas quem em sã consciência haveria de querer uma glória tão chagada pelas rasuras da história contada meio a escombros estilhaçados pelos ventos que saem da boca do maldito? Sou filho homem de um punhado de quatro nascituros, de gerações diferentes e idéias igualmente distantes, mas a união sempre foi preponderante em nossas vidas. Lá se vão pouco mais de trinta anos bem vividos. Vivi amores, perdi muitos deles, salvei alguns e me abstive de outros tantos. Mas, é a vida que segue e é com ela que eu vou, às vezes nas mesmas passadas e outras tantas meio que driblando suas curvas; eu procuro seguir em frente. Levo no peito o amor da minha família, e a família de amores que tenho. Desde os amigos mais antigos, até meu novo amor de amiga, minha primeiríssima amiga mulher, Nath, que eu amo muito e está comigo sempre, onde quer que este corpo esteja. Tenho a Deby, a estrangeira que lá dos EUA cravou sua bandeira aqui neste mesmo coração que escreve. E ainda ganhei uma nova maninha, a Nay, que o tempo não quis que fosse gerada no mesmo útero que eu fui, mas de onde estava já trazia consigo a informação genética que precisava para que nos encontrássemos um dia. E eu, tolo, com a riqueza nas próprias mãos, ou melhor, dentro do próprio peito, esperando essa tal glória vir justificar sua torpe definição. Uma definição pálida sobre algo comum inventada por burgueses sujos pela mesma imundície que suas botas pisoteavam, invejosos de mimos mesquinhos como um dente de ouro, quando na verdade não conseguiam nem mesmo sorrir! Vou seguindo eu, banguela se preciso for, mas feliz por ter completado todos os rituais sagrados das velhas e das novas escrituras, das cristãs e das agnósticas, dos velhos sábios e dos novos gênios, mas sempre convicto da história que eu mesmo escrevi, e que tento, ao menos uma vez por semana, dividi-la um pouco com todos vocês. Obrigado.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 14h34
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O tempo e o vento
Com as mãos dadas e apoiadas atrás da cabeça, olho para o relógio de parede como quem olha para a verdade cruel que o tempo denota. Os seus ponteiros formam um compaço como se dissessem que o ângulo entre o presente e o futuro, cada vez se exigue mais. Pobre ser humano refém das intempéries dos erros não programados! Os cupidos de ontem, de certo também foram flechados pelos ponteiros do tempo , sacrificando seus serviços de outrora e envelhecendo perante os amores de agora. Mas o anjo da esperança aparece e traz consigo a arpa empoeirada pelos melhores momentos do passado e, mesmo um tanto desafinada e sem a corda de SI, desperta em MIm o gosto doce do mel do amor e o sabor enigmático e prazerozo do pecado. Parem o rufar dos tambores! Abafem o som das trombetas antes que venham os cavaleiros do apocalipse, porque o que era vazio virou esperança e o que era saudade virou você. Faço-me órfão do destino e giro a ampulheta da vida. Começo tudo de novo, começo agora. Deixe que o relógio e seus ponteiros formem a figura que quiserem, pois eu sou rei do meu tempo, eu sou o senhor dos meus dias. E vc ? Bom, você é o vento que empurra as velas do nosso tempo para onde o tempo nos leve sem que nos leve o amor que nos une. Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h13
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O teu futuro
Você pode lançar os dados se quiser, mas lembre-se que a sorte nunca foi tua amiga; qualquer resultado na soma dos números será muito menor que a quantidade de vezes que você pensa em mim todos os dias. Viaje de avião pra lá e pra cá como sempre faz. Faça do trabalho refúgio para seus medos, mas a maior altura que você atingir voando, será o piso do que você espera como nossos menores sonhos juntos. Trancafie-se num ponto qualquer do planeta e verás que a minha presença não necessita de meio físico para propagar-se, você estará apenas me eternizando dentro de ti. Você pode...Não, você não pode. Não faça nada. Não pense. Apenas fecha teus olhos. Espere. espere um pouco. Tempo suficiente que fará da tua ansiedade resposta de todas as dúvidas e medos da minha ausência. Os nossos lábios se tocam e neste momento a única certeza que tens é que o passado tornou-se muito pouco. Ínfimo sentimento escondido atrás dos dias em que não nos conhecíamos. O presente é bom, é muito bom. Este beijo foi algo que almejavas há muito e que sempre faltou quase nada para que acontecesse. E o futuro, bom, o teu futuro sou eu.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 01h11
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