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As Palavras Segundo Kiko Casotti


Reflexos da alma

Eu vi quando você saiu correndo de repente como uma menininha medrosa pela sombra dos galhos de árvore no chão, e com as pernas ainda confusas e bambas. O tombo foi só uma questão de tempo. Joelhos ralados e um risco de lágrima no rosto, evidenciavam que o tombo não houvera sido apenas engraçado, doía. Ao seu lado uma poça d'água refletia seu rosto triste e machucado. Enquanto você a olhava, uma gota de lágrima desprendeu-se de seus olhos e encheu de ondas o mar da tranquilidade que a poça guardava. Agora seu rosto desfigurara-se e os reflexos não lhe eram favoráveis. As ondas da poça remetiam-lhe ao rosto as rugas que o tempo far-lhe-á um dia. Filmes atropelaram seus pensamentos de então. Desde os medos das sombras dos galhos até os medos mais profundos da alma. A grande verdade era desvendada diante de seus olhos: a imagem não reflete pensamentos e atitudes, só os traços firmes e fortes do seu corpo e da sua imagem que se esvaíram pelo mal uso. Seja um corpo refletido, não um reflexo de si mesma! Os cegos não enchergam porque não podem e não por que dão às costas para o momento; preferem a solidão do escuro do que um reflexo como companhia. Jazem no silêncio do vazio é verdade, entretanto, não lançam seus corpos e suas mentes na volatibilidade de companhias estéreis em detrimento do alvo maior de sua existência, o amor em vida. Até por quê, não chove todos os dias, não haverá poças o bastante para ampliar seus contatos. O que valeu a pena então? - questionou-se nos segundos que se seguiam. Mais vale ter pernas boas parar poder correr ou mais vale um tombo providencial para envidenciar-lhe o maior propósito de viver-se? Mais vale uma vida toda de trabalho atrás de alguns sonhos do momento ou vale mais trabalhar um pouco para ter nos melhores momentos, as pessoas que ama ainda com vida? Deu-se conta de que a parede do seu quarto, forrada de diplomas diversos, não contém uma foto sequer de pessoa alguma? Mas não deixe de colecioná-los - dizia-lhe sua voz interior -, eles são indiferentes ao tempo e podem ser usados para forrar o seu caixão ou até mesmo queimados numa noite de muito frio e sozinha. Foi nesse contexto que te vi. Você olhou para o reflexo outra vez, e as ondas já haviam sumido, sobrou apenas o que a vida nos dá: a vida. Não era menina nem era velha, era você, que levantou, sacudiu a poeira sobre a calça, um pouco rasgada na queda, virou-se e olhou para mim. E correu. Correu muito. Correu tanto que teu corpo parecia ter queimado todo o seu medo e seu vazio metabolizando-os em adrenalina. A luz do sol na minha face ofuscara um pouco minha visão, e, quando dei por mim, você se jogava com toda a força do movimento sobre meu corpo, e me abraçou muito, muito forte, enquanto eu a rodava como um carrossel no centro de nossas almas, no parque de nossos desejos. Você leu meus lábios enquanto eu disse "te amo", e eu li os seus quando você disse "eu amo mais" e o sorriso repleto de lascívia percorria nossos rostos. É assim a vida, são poucas as chances de fazer tudo o que há de mais importante a fazer, e alguns segundos apenas. Não deixe que o tempo lhe leve pra bem longe de você, pois lá você estará bem longe de qualquer um. Então fica perto e viva a vida, aí talvez, sobrará um espaço maior na parede de seu quarto para algumas fotos dos fatos da sua vida.

                Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 00h01
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