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Cegueira
Tenho que trocar essas lentes...Os anos voaram e meus olhos ficaram para trás assistindo as derrotas da matéria. Mas, antes cego do que olhar para o tempo enquanto limpo as lentes dos óculos na camisa suja pela poeira do ar seco. Valente pano que deslizava manso sobre o vidro. Você foi mais lente do que todos os óculos que eu comprara em toda minha vida, pois nenhum deles desvendara uma imagem tão perfeita como a sua. A culpa é dessa tal de genética. Metade dos meus cromossomos herdei da beleza de meus pais e a outra metade da cegueira dos dois, somadas. Mas reclamar de quê, não é verdade! Que seria dos oftalmologistas se não fôssemos nós, seres recessivos abnegados da visão !!!Então eu mudo de assunto porque não posso mudar o que sinto, e realmente o sinto. E o que seria dos meus dias se não fosse você! Primeiro seriam embaçados é claro, mas para as ruínas do tempo eu dou as costas, prefiro entregar-me a lucidez escancarada de teu brilho. Nunca me atrevi a buscá-la, lá mesmo por onde passavas, porque não queria evidenciar -lhe passos sôfregos, temperados com uma tremenda dificuldade de caminhar devido ao efeito dos tremores que meu corpo alcança. Mas não há de ser nada. Eu só preciso de alguns segundos com você. O tempo minimamente necessário para dizer que quem pergunta de você tem meu corpo, e meu corpo é uma divindade da natureza e por ela guio meus instintos e absorvo tua seiva; não me rogarei menor por enxergar menos do que o Pai lhe fez mulher, porque sei que no escuro, mostraremos o sabor dessa atitude. Sem luz prevalece o que eu te ofereço, por isso aguardo este tempo, ínfimo que seja, a sua frente, pra transformar dois corpos a sós em um só corpo, às margens da dor e no centro do Universo.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 00h28
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A coluna
Aqui frente à tela, meu espírito vaga atrás de vibrações que me tragam aquela velha vontade de escrever. Os dedos parados sobre as teclas revelam que meu conhecimento em digitação se fez presente ainda nos tempos da datilografia. Não, não é nenhum exame médico não, eu fiz datilografia mesmo! E muitos que lerem essas poucas linhas, também de certo já carregam esse conhecimento consigo. Estou tão desconcentrado que até o ventilador virou meu inimigo. Suas pás desconhecem a densidade do ar impregnado das loucuras de ontem a noite e o barulho é seu maior efeito. Desliguei-o. Os dedos ainda sobre as teclas e o 'prompt' aguarda meu primeiro dígito, mas minha atenção agora se apega há um velho disco que roda na vitrola velha que ganhei ainda menino. Na canção um tal de Santo Cristo foi pra Brasília e acabou morrendo, e uma tal Maria Lúcia também...Virei um copo inteiro de wisk puro enquanto ouço o final da canção. Isso foi suficiente pra que meus dedos nervosos fizessem algum barulho nesta máquina implacável. Mais um copo de wisk se fez necessário. Na tela do computador, vejo que já passa da meia-noite, tempo limite pra que eu mande o e-mail para o jornal que começa a ser impresso em uma hora. O velho disco agarrou na hora em que o tal cara queria dizer pro presidente para salvar toda essa gente que faz sofrer...Na quinta repetição, minha coluna ganhou vida: " Renato Russo: o dom de falar o que precisa ser ouvido ".
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 20h16
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