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As Palavras Segundo Kiko Casotti


Infinitude

Eu sou o futuro de um passado incerto. Projeções de um presente invisível incutido em minha mente como transparência de minha realidade. Eu fui o que os meus pais queriam,quando, o que eu queria, na verdade, era parar de fingir que eu queria alguma coisa. Eu sou você quando se olha no espelho e se pergunta se tudo aquilo que vivemos juntos é fruto da mais pura verdade ou apenas o reflexo de um fracasso iminente. Eu fui nós dois enquanto olhava aquela velha foto do acampamento nas montanhas, sorrindo dos desarranjos e infortúnios que a pequena selva nos pregara. Eu fui eu te amo, você foi eu te amo também pela primeira vez. Eu fui o que sou hoje só mesmo para deixar bem claro o que eu era, e eu era feliz. E pretérito existem vários, mas o meu era o mais que perfeito. Eu lhe sonhava enquanto acordado e lhe amava enquanto dormia. Eu só não quero mais conjugar tanto. Tantas pessoas, tantos tempos, movimentos. Não importa o sou, o fui, o era, estes verbos já foram conjugados pelos personagens dos momentos ditos, mas não os personagens infinitos. Esta é a única certeza que temos, somos perecíveis esperando a hora de findar a juventude e abraçar a infinitude, pois " o que for, quando for é que será o que é ".

               Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h51
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A canção da despedida

A cadeira firmava-se ao chão somente pelas duas pernas de trás. Outro apoio era feito pela minha cabeça na parede às minhas costas. No ouvido um fone trazia-me o som de "nothing else matters" muito tocada no início dos anos 90 e eternizada pela juventude da qual fiz parte. Mas o fluxo de sangue do meu cérebro corria em sentido oposto ao dos acordes da canção, e isso que dava o equilíbrio necessário a cadeira e ao meu corpo. Contudo, a música sempre acaba, o fluxo sanguíneo não. Não haveria muito tempo de equilíbrio ainda. Esse desejo humano de optar por sempre fazer as escolhas mais perigosas sob o preceito de manipular a adrenalina de teu corpo, nada mais é que uma completa incompreensão do certo e do errado. Olhar de frente uma luz de uma cama de hospital seria um primeiro passo, e talvez único, de sair da escuridão da sombra e sentir a luz quente do sol divino em sua tez, ainda saudável, sem o estupro inescrupuloso da deterioração do oposto. Então, não faça como eu...Senta numa cadeira com todos os seus pés fixados ao chão. Anda na moto em duas rodas, pois para isso foi programada. Anda rápido e não ultra-rápido, respeita às normas de trânsito, respeita as normas da vida. A vida é nossa, construimos as nossas regras para adequar-mos nossas vidas, então nós somos as regras. Para mim já não há mais tempo, os pés da cadeira escorregaram antes do solo da canção e, o único aparato para meu corpo, foi o piso inelástico do chão. É difícil falar para vocês isso daqui, mas o farei o quanto puder, para que não vejam assim como eu vejo agora meu corpo numa caixa descendo sete palmos nessa terra de meu Deus. Na lápide: " Aqui jaz Fulano de Tal, alma de um homem sem medo, abraçado pelo medo do homem."

          Kiko Casotti

 



Escrito por Kiko Casotti às 23h39
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