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Corrente
Insana pedra que não despenca sobre mim, talvez, se o fizesse, racharia por inteiro este corpo que duvida até mesmo do óbvio cru e cruel e que os dois hemisférios do crâncio, não conjugam de igual opinião. Houve tempo em que os ventos, por mais diversos lugares de onde brotassem, findavam antes mesmo do exílio, para refrescar este calor que meu peito exala mas que o Kelvin não registra mais. Dormi quando ainda estava frio, ibernei na juventude e despertei no aquecimento global. Já rodei os ponteiros do relógio para trás até quase entortar meus braços, mas o cuco sempre me cospe na cara o tempo que já perdi. Corri descalço contra a correnteza do rio para ver se inverteria sua corrente, mas a corrente já havia aprisionado meus pés no pó da presente rotação. Então sigo. Mas agora, sem a menor pressa, sem a menor ponte que ligue os honorários que gastei comigo mesmo controlando a ansiedade marginal da vida de outrora.
Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 23h04
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