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Águas que correm
Como um fio d'água que escorre montanha abaixo, driblando as pedras e obstáculos do caminho, nutrindo as vegetações que circundam o monte, a lágrima desce. Ainda que um tanto salobra, ela desce. Escorre da altura dos olhos e contorna os defeitos e os poros da pele, mas não atinge grande distância. O ar é mais seco do que a possibilidade dela tornar-se mais excessiva e fluida e acaba por evaporar-se mais rapidamente do que o motivo que lhe trouxe a tona. Em ambos os casos a capacidade de renovar-se é a mesma. Salobra ou água pura, cada uma tem sua gênese e sua renovação. A água dos picos volta para a fonte com a experiência adquirida no passeio pelos montes, mares e chuva. A lágrima surge do investimento em ações boas e ruins, ambas refletem nela seus resultados futuros, sempre a mercê do mercado que a rege. Mas a roda gigantesca da vida não para de girar, e os motivos para novos investimentos são tantos quanto a capacidade magnífica que temos de suportá-los. Uma vez investi no meu coração. Meu grito foi mais forte do que a música que tocava nos bares a volta, e teus pés foram tão rápidos quanto os meus quando corremos um em direção ao outro. E, enquanto a chuva caía e nos molhava abundantemente, a lágrima escorria de nossos olhos, e a água limpa e a salobra se misturavam aos nossos soluços. "Eu te amo" foi o último grito ouvido nos escombros da noite chuvosa, e nossos lábios foram o limiar do início e fim do maior investimento de nossas vidas: nós dois. Kiko Casotti
Escrito por Kiko Casotti às 19h23
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