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As Palavras Segundo Kiko Casotti


A minha história

Se é verdade que um médico nunca gosta de ser paciente, isso eu não sei, mas sei que um contador de histórias, nunca conta a própria evolução. Mas aqui, debruçado sobre as lâminas de vidro do ônibus da partida, forço-me a arrumar os pensamentos que me tragam ao menos um motivo para o ócio cerebral que a viagem induz. A poeira não se faz velada, e nem poderia, porque as vidraças não se podiam fechar diante do calor que o astro rei, lá de acima, imperando sobre tudo e sobre todos, e por conseguinte, em toda a caatinga que abaixo avistava, despeja sobre o nosso camelo de rodas. É só o que nos distingue do deserto do Saara, as rodas. Os paus secos do canto da estrada, parecem ser postes de fio único. Cada um que passa - várias jardas um do outro - temporiza a vazão que me carrega pra lugar algum. A choradeira das crianças famintas, que até ali só se haviam alimentado do pó da estrada, não era mais desconfortável do que as rezas que as mulheres mais velhas praticam perto de mim. Giro a roleta dos meus olhos e me prendo fixamente a olhar o chão da estrada, onde um burro, morto por desgraça qualquer, se apresenta dilacerado sobre o chão de poeira batida, enquanto acima, fazendo sombras no pêlo envelhecido do animal morto, os abutres já começam a dançar em círculos comemorando o banquete do acaso. O termostato indica que o que era ruim, piorou. Calor pouco é bobagem pra quem decide viajar no tempo achando que o momento retroage à ultima besteira que se fez. Não se esquece uma tolice alterando a rota de sua passagem, o que muda mesmo é só a distância. Então decido escrever meus versos desta vida que ainda é minha, pois o pior que eu posso fazer, já poderá ajudar algum desvisado das proezas antagônicas de um amor arrebatante. E, se por acaso, alguém vier a ler essas linhas tristonhas, por conta deste balanço do "bacural do deserto", continue de onde parei. Pergunte sobre mim aos que ficarem pra que seus escritos tenhaum alguma valia, mas não deixem de escrever! Quero ouvir você narrar a minha história nos versos escritos por sua caligrafia, poque até onde eu me lembro eu mesmo escrevi, e não quero viver tudo outra vez ou nao quero ouvir as mesmas falácias e banalidades que já fiz. Narre sob sua escrita. Narre compassadamente, tranquilamente, mesmo no fim de tudo, quando o último capítulo do livro dos meus dias tiver sido escrito, narre, e então não vou precisar de apresentação. A sua voz vai ser a chave, de onde quer que seja, dos portões da eternidade aos quais eu me candidato desde agora.

          Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 19h49
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Velhice conquistada

Notei nesses seus olhos discretos e vazios, que sempre evitou qualquer caminho que os lançasse aos meus olhos, que tudo o que a vida nos deu de amor gostoso, limpo e claro, faleceu sob livros de um curso qualquer nos seus guardados ou dentre meia duzia de postais deste mundo que percorreu. Viagens. Melhor forma de fugir de si mesma. Sinônimo de medo. Antônimo de qualquer coisa que lhe deixa feliz, preocupada em fazer-se presente em todos os lugares onde eu não possa estar. Mas, contrariando uns versos de uma música pop, raízes no ar não são uma explicação de uma liberdade conquistada, nada mais é do que o distanciamento de você mesma gerado pelo sopro preso entre o que você realiza e aquilo que você realmente vale. Quanto mais distante, maior o medo de enfrentar o óbvio: íons iguais repelidos por si só. Suas mãos quentes a primeira vista, tentam disfarçar o inevitável: você joga, você manipula, você mente. Mente até no que sente. Coração criogênico embaixo de uma pele morna. Mas, como dizem os mais antigos, o calor, ou o próprio sol, envelhece as pessoas. É fácil reparar as rugas no verso de sua palma assim como o fio branco que já despenca do seu teto. Quero ver se as mesmas pessoas que um dia lhe chamaram nova, estejam vivas para olhar um pouquinho mais de perto agora! Porque onde há mentira e desrespeito, há uma pessoa envelhecida pelos mesmos adjetivos que outrora espirrou nas abas do ventilador de sua vida.

          Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h23
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O vácuo de mim mesmo

O silêncio do vácuo criado entre eu e a porta dentro do bloco de concreto onde trabalho, suavizava mas não impedia que o som dos clics nos mouses se propagassem - ainda que de forma discreta - até os confins mais distantes do canal de áudio do meu tímpano apagado. Era esse o espelho do mau humor. A deficiencia de atenção e os cotovelos marcados em vermelho, onde firmava o peso do meu corpo, faziam deste um exercício paciente de tornar o mais ínfimo barulho, proposta para um novo recomeço. E eis que os céus se abriram. No vácuo o som não se propaga, mas a luz, essa impera em qualquer ambiente, absurdo que seja, no impenetrável reino, conhecido nos guetos do vazio, como "Tedius honorarium", ou simplesmente, tédio. Era a porta que se abria e trazia consigo a tentativa divina de perfurar a obscuridão da vida regrada a mesquinhos pensamentos e ordinária imaginação que cercavam-me como ilha, delineada pelas águas sujas e salgadas como a lágrima que me escorre dos olhos agora, enquanto olho tua foto no descanso do computador e ouço o fundo musical interpretado por um faxineiro desavisado, que faz saxofone do seu assobio despreocupado e, inocente, assopra a música que um dia uniu você e eu.

             Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 21h20
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Sou 33

É verdade. Sou tomado pelo tempo e assisto mais uma volta deste astro que resido em torno da gravidade solar. Contra minha total vontade e pensamentos, não houve "bug" nos relógios, e o sino da igreja soprou o som das doze badaladas para as bandas de onde moro. E quando ouvi, calei meu mal estar. Da igreja brotam as boas vindas para um novo filho do Pai que agora faço parte, o restrito rol dos filhos que atingiram a idade de número 33. Espero nao ser crucificado pelas tonterias de minhas ações impensadas ou pela falta de fé que um dia pode ter-me passado pela cabeça, mas dela brotam apenas pensamentos de alegria neste momento. Aos que estas palavras alcançarem, injeto a certeza de que ao menos tentei fazer parte da vida de vocês de alguma forma e, com certeza, não tenho a petulância de acreditar que consegui unanimidade, até por que minha geração sabe muito bem o que é sofrer da hipocrisia de ter certeza da unanimidade burra e a mente cega perante a leitura da certeza de outros. Esse cara, na parede atrás de mim, com esse rosto triste e sofrido, suportando o peso de seu corpo pelos pulsos, todo ferido pelo açoite dos contrários, não foi unânime e, mesmo assim, mais de 2000 anos depois, é único. Unânime dentro de nossas mentes, de nossas casas e de nossos corações, cristãos arrependidos do que ainda nem fizemos, mas fadados a busca eterna de um amor intangível e transcedental que só concretizaremos arrematando todo o sofrimento de uma vida. Não bastasse a alegria e orgulho de tudo o que tenho e de todos que me têm, é muito bom pensar na data de hoje como o dia em que eu, Kiko, filho do Casotti, faço 33 anos, a mesma idade de Jesus, o filho de Deus, quando eternizou em nossos corações o que há de mais puro e verdadeiro, e que continua inflando a cada dia as nossas almas com o eterno ar real que conduzir-nos-á aos melhores lugares do fim de nossos dias.
Obrigado a todos por tudo!

          Kiko Casotti

 


 



Escrito por Kiko Casotti às 02h33
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Cantos

Não monte seu castelo em cima da beleza enaltecida de sua íris, já que a menina dos teus olhos só enxerga o próprio umbigo, e este, já está preso pelo piercing que ostenta uma pedra tão falsa quanto a pele que você veste. Vaidade auto-personificada é bobagem. Sorrir sob pele amarelada só faz crer que a petulância de seus lábios tristonhos é maior que a sua capacidade de internalizar afeto. Tanto melhor para você ter intimidade com a sorte, pois pesa sobre ela toda insensatez deste corpo sujo pelas aventuras dos ventos de todos os cantos. Não obstante, o apego aos progenitores já se foi, apega-se aos cantos que procura, bem melhor assim, problema haverá quando os cantos te perseguirem.

               Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h40
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Giros

O mundo gira no compasso que eu passo e penso o que pode ser pior do que passar os dias a girar. E no giro do capital de giro eu giro em torno do mesmo lugar sem dinheiro pra poder comprar. Comprar a roda que rodando gira o mundo que não pode parar de rodar a roda que no carro conta-giros e girando faz da força mecânica indispensável pro veículo circular. E o veículo circula na mídia que não para de rodar o mundo inteiro e toda essa volta que o mundo dá em torno da notícia faz dos nossos pensamentos refêns da dinâmica contorcida do mundo rodeado e observado de olhos circulares. Olhos circulares. Circulares. Circulares como o meu relógio de pulso que girando faz as horas deslizarem a ponto de mostrar que o tempo não tem tempo pra te esperar. Então paro e olho pro teus olhos azuis e circulares só pra te dizer que estou a voltas de afirmar que só falta pouco a distância que nos separa do resto de nossas vidas gira em torno de um beijo que o desejo não fara rodar de volta pro mesmo lugar.

          Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 22h21
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Sementes

Tudo começou quando você lançou fora aquelas velhas sementes sem saber onde iriam cair. Pois cairam. Terreno fértil é aquele menosprezado pela frieza direcionada dos seus acontecimentos. Germinaram, mas ainda não deram frutos. Este espécime da fauna universal não se encontra nos livros e não podem ser regados por qualquer pessoa. Personalidade bruta que carrega da jovem que lançou sua gênese em tempo não muito distante. Antes houvera jogado longe dali. O retorno é sempre amaldiçoado pelo tempo, ele não gosta de ver seus ventos amparados pelas costas largas da mediocridade. Pequenos e menosprezados embriões lançados à terra; sua ausência não fez deles espermas descendo sob a descarga de um sanitário qualquer, foram inseminados no amago da terra e, se sua germinação não foi dotada da mesma facilidade de um coito qualquer, que dirá o destino de uma gestação indesejada? Ovos lançados sobre o ombro da fêmea que aderiu ao ostracismo dos recantos da Terra? De certo o vegetal é indiferente a tudo isso, características herdadas dos genes da mãe, entretanto, não pode ser retirado dali. O terreno ao qual está enraizado, é duro, é forte, mas é tão apaixonado quanto o coração da mãe que o abandonara.

           Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h43
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Eclipse

Há dias que são noites! Penumbra que paira sobre um corpo fraco apesar do forte coração que ostenta. Brilho fosco de um olhar misterioso sempre foi predicado mais persistente ante os demais. A sombra já não é mais tão grande como fora um dia. "Porque?" - intriga-se. Diminuíra seu tamanho ou sua importância se faz tão volátil que se restringe ao aceno de um velho, de cabelos longos e barbudo, que lhe pede em companhia? Será Moisés requerendo sua presença na romaria para Canaã? Será Noé driblando escolhas de espécimes raras para por-lhe tripulante da grande arca? Mas não, não há de ser nada. Esse corpo que carregou todo um cansaço das batalhas dos acasos da prõpria história e agora amarga a leve tristeza que o ócio impõe, é madeira que não se quebra. Pode invergar, de certo, mas não se quebra frente aos dissabores dos infortúnios mentirosos e aleatórios que o improvável às vezes o julga, fiéis ao momento em que as desgraças o cercam. Emblematizado sob a alcunha de destino como se todos os desprovidos de fé, saúde ou auto-controle, vivessem no escuro dos dias de um eclipse total, onde a verdade se esconde atrás das falsas declarações de um Deus, irrigadas em luzes artificiais de um programa qualquer de TV.

         Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h28
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Texto em vão

Vã filosofia esta da vida ser vivida, remoída, destruída por intervenção do homem ou da natureza. Natureza vã, obscurecida pela núvem negra das chaminés ligadas pela extração da própria mãe. Vã demarcação de terras que se desdobra em torno de um povo cercado pelos mesmos arames que apregoaram as camisas suadas da labuta dos dias, e pela pele vermelha dos índios que são de direita. Direita, não direito. Vã Constituição que assegura os direitos de posse mas reflete nos índios apenas os direitos às posses, mas o direito de fato, fica preso num arquivo velho e empoeirado no sótão do STF. Vã dosagem de amor e proteção infantil, quando não matamos sob fogo, lançamos as crianças pela janela dos nossos prédios. Vã coragem que nos liberta dos desafios e nos entrega ao calabouço escuro e sujo num lugar qualquer do Oriente Médio, comendo a poeira do deserto e morrendo da inanição de nossos ideais religiosos e egoístas. É vã também, eu confesso, escrever algumas linhas num canto qualquer da internet achando que curar-lhes-ia, de uma vez por todas, as barbáries da loucura imediata de cada momento. Mas, não foi por este motivo que escrevi e não carrego comigo a verdade absoluta das coisas que nem sei, entretanto, desses dedos não serão vendidas ilusões pescadas, como preconiza Falcão ou outro símbolo qualquer, nem também rogo pragas para que tudo o que conhecemos seja um grande conto de fadas limitados por barbantes como num teatro de fantoches, mas, com certeza, apesar das diabruras e dobras que o destino remeter-nos-á, antes que a cortina feche, se ainda houver um único espectador e uma vela que ilumine o final dos nossos tempos, ainda assim, no final de tudo, sonho em poder dizer bem alto: valeu a pena! 

           Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 00h02
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Saudade

Folhas de papel irão faltar com certeza; não há margem suficiente que possa restringi-la a tão poucas linhas. Foi inverno nos momentos em que esteves longe, surge enfim o sol que me brilha através de teus olhos. Olhos fracos, olhos mansos. Não se fazem forte diante da tez clara de sua pele que reflete minha sombra ainda morna. Quente se faz apenas meu coração agora. Sinto-me um pequeno desbravador de novos rumos detido sob a pele de meu corpo, cujos traços ignoram minha ânsia de ter você. Porém, minha ânsia é bem menor que minha saudade e minha saudade é tudo o que restou de mim nesta vida. Minha saudade tem seu nome. Minha saudade é você.


                       Kiko Casotti

 

* Este texto foi escrito com exclusividade.



Escrito por Kiko Casotti às 00h12
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De onde brota a poeira

Senti a peira por debaixo das axilas, em toda parte branca de minha fazenda, enquanto acompanhava as cataras negras e fortes - frutos de toda a produção da primavera - do café que invadem meu copo com sua coloração enegrecida. A poeira veio junto com a porta que só não se rompeu ao meio, por intermédio das fibras do jacarandá vindo do norte, seivado pelas poças cobertas pela sombra da caatinga cuidadas pelo tempo desonesto. Não havia por estas bandas, cabelos tao sedosos que a poeira que entrara não se meteu a sujar. E nem pudera, o perfume exumou toda a peira em torno de si. Seu semblante era ávido e limpo, contrastava com tudo de mais pobre que naquele barracão jazia. Dado meu olhar catatônico e abusivo, as criadas do senhorio já se anteciparam em esvaziar nosso campo de visão. Protagonistas agora cerrados no quadrado padrão que enumera em quatro as paredes que já refletiam nossas sombras. E eu saí das sombras, das sombras da minha bagagem mundana, enxarcado pelo café que derramei, para voltar a luz, a luz dos seus olhos, a luz do meu destino.

                    Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 00h02
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Eu sou você onde quer que eu esteja

Eu sou os olhos que você vê e não se dá conta, porque sua praticidade é bem maior que seu desejo. Este passo que você deu, atravessou-me sem sentir, porque a frieza peculiar do seu tato, fez da minha, um sopro indusido pelas asas de uma borboleta manca e sem forças. Ao dormir, não tente atribuir demônios as figuras estranhas nas paredes do seu quarto, metade delas é a sombra do anteparo que separa você do resto do quarto e, a outra metade sou eu, o fantasma dos seus dias. Sabe essas imagens que você julga ter visto outras vezes como uma repetição do seu inconsciente? É apenas a minha maneira de mostrar-lhe que seus melhores momentos comigo são passíveis de reprise. Então não seja prática, muito menos fria. Não receie os fantasmas do seu quarto e nem as imagens repetidas. Tudo que você fará de agora em diante, certifique-se da origem dos pensamentos que remete, pois em todos os outros, eu estarei sempre consigo.

               Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 00h25
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Corrente

Insana pedra que não despenca sobre mim, talvez, se o fizesse, racharia por inteiro este corpo que duvida até mesmo do óbvio cru e cruel e que os dois hemisférios do crâncio, não conjugam de igual opinião. Houve tempo em que os ventos, por mais diversos lugares de onde brotassem, findavam antes mesmo do exílio, para refrescar este calor que meu peito exala mas que o Kelvin não registra mais. Dormi quando ainda estava frio, ibernei na juventude e despertei no aquecimento global. Já rodei os ponteiros do relógio para trás até quase entortar meus braços, mas o cuco sempre me cospe na cara o tempo que já perdi. Corri descalço contra a correnteza do rio para ver se inverteria sua corrente, mas a corrente já havia aprisionado meus pés no pó da presente rotação. Então sigo. Mas agora, sem a menor pressa, sem a menor ponte que ligue os honorários que gastei comigo mesmo controlando a ansiedade marginal da vida de outrora.

                Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h04
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Uma gata conhece outra

Uma tela de computador às vezes pode parecer menos trivial do que se imagina. Ela pode trazer-nos desde de dados mais complexos e criptografados, até mesmo a outra metade do nosso HD. Foi assim quando vi você. Hard ficou o disc, meu heart ficou soft. Mesmo através dessa rede de computadores interligados, comparável a uma galáxia de fios, antenas e ondas, meu PANDA não foi capaz de deter você. Você me invadiu. Deixou teu vírus em mim. Ainda não há vacina para ele, e quer saber, não sei se quero eliminá-lo. Afinal, nesta galáxia existe milhares de estrelas e o porquê de duas se encontrarem é algo ainda desconhecido, mesmo diante de tantas outras como testemunha. Agora é creditar um pouco de confiança no tempo. Eu tenho certeza que a tua tela mostra tua declaração a este usuário insólito que me transformei, aprisionado na possibilidade do irreal, esperando um enter para enviá-la. Aperte. Aperte quando quiser. Não se apresse, não tenha medo. O pior que pode acontecer é eu apaixonar-me, mas isso é só uma possibilidade. Haja o que houver, dois computadores podem separar-se apenas por alguns quilômetros, mas duas estrelas podem distar anos luz uma da outra. Escolha a distância que te aprece. O prompt pisca na tua tela, já escreveu tudo que quer dizer? Então enter. Olha pra tela, confira se todos os carinhos e afagos cabíveis não foram omitidos. Se ainda não, faze isso logo, antes que tua gatinha pule no teu colo e aperte o enter por você.

          Kiko Casotti

 

* Este texto foi escrito com exclusividade.



Escrito por Kiko Casotti às 23h23
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Ventos

Suaves são os alísios quem trazem seu cheiro de volta, e denso é o ar empregnado pela essência da saudade. Esta não fora motivada pela tua partida não, é fruto do que fomos e que de certo haveríamos de ser, porque o que é é, e é assim desde o princípio. Nebuloso é o tempo do regresso, bem mais sagaz e difícil que os ventos da partida, onde a preocupação era com o "quando" e passara a ser agora com o "como". Sutil diferença seria sentida por um leigo, mas a ignorância é um prato do qual ainda nao fiz uso, e ouso dizer que não farei dia algum, não pela forte supremacia que sinto de um excesso de cultura ilimitado, mas sim pelo acovardamento que o insucesso da ignorância pode trazer a um corpo vazio. E se o é, foi porque preferiu não inalar os ventos que vieram de longe, mas, podemos indagar a este o mal que faz a ausência daquele para a sua vida ? Antes ele evite que seu pulmão absorva os males da saudade e tenha vida no seu coração que ainda bate.

         Kiko Casotti



Escrito por Kiko Casotti às 23h10
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